O Homem do Proibido Fumar…

Desde que a lei antifumo foi sancionada, em maio, o empresário Marcelo dos Santos, 42, incluiu um hábito excêntrico ao seu dia a dia. Pela manhã, no escritório de sua fábrica de placas de sinalização, no segundo -e último- andar de um edifício na região industrial de Santo André, passou a ler decretos e resoluções publicados no “Diário Oficial do Estado”. Proprietário de empresa pioneira no ramo das chamadas “encarteladas” (placas de alumínio, vinil ou plástico que podem ser fixadas sem auxílio técnico), Marcelo queria apenas saber de um detalhe: como seria o modelo do Estado para o aviso de “Proibido Fumar”. O layout oficial foi publicado em 17 de julho, quando, enfim, o empresário pôde ordenar aos seus 30 funcionários: “Parem as máquinas”. Onde antes se produziam placas do tipo “Perigo de Vida -Alta Tensão”, “Cachorro Bravo”, “Pare” e “Não Estacione”, passou-se a confeccionar apenas um modelo. Aquele que hoje está na parede de boa parte dos estabelecimentos comerciais de São Paulo, com o contorno do Estado em vermelho decretando a proibição do fumo. “Minha produção dobrou nesses dias”, diz Marcelo, que, com medo da concorrência, se recusa a traduzir seu sucesso com números. Colecionador Não que ele invista em um tipo ressabiado. Apenas se vale de “alguns cuidados”. Há quatro anos, formou-se em direito para entender um pouco mais sobre contratos e leis trabalhistas. “Não me sentia seguro para assinar papéis”, diz. Também evita falar do sucesso de suas placas com amigos. “Alguns viraram concorrentes”, conta, sorrindo. Marcelo não acha que Santo André seja “o melhor lugar do mundo para se viver”, mas gosta da cidade. Sua família veio da Mooca, região leste de São Paulo, reduto de italianos. De sua infância, traz a lembrança de um hobby comum entre garotos: colecionar placas que encontrava pelas ruas -tanto de sinalização como de carros. A brincadeira o levou a enxergar um nicho de mercado. A placa oficial da lei antifumo produzida por sua empresa pode ser encontrada em qualquer papelaria, por preços de R$ 10 a R$ 15. Para o empresário, é aí que está a grande jogada. “Antes de eu produzir as encarteladas, era preciso encomendar um projeto específico em uma empresa especializada”, conta. A reportagem visitou dez estabelecimentos atrás de uma placa oficial da lei antifumo: apenas um deles vendia produto de concorrente da marca criada por ele, a Sinalize. Correntinha de ouro no pescoço, celular preso ao cinto, Marcelo conta que sua empresa foi aberta em 1997 e, em uma década, desmembrou-se em três, formando o grupo Sinalize. Hoje, também faz impressões adesivas de grandes dimensões, usadas para propagandas que cobrem geladeiras e até carros inteiros. Diz ser “um fumante educado” – só fuma em ambientes abertos (um maço por dia). Aprova a lei antifumo -sorri quando ouve o nome da regulamentação-, apesar de considerá-la exagerada. De olho nas oportunidades, hoje lê também o “Diário Oficial” de outros Estados brasileiros.

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